sábado, 11 de fevereiro de 2023

Sobre Arembepe, Canoa Quebrada e o capitalismo

 Guardadas as muitas e grandes diferenças -- seja do lugar, seja do período e seu contexto político --, Canoa Quebrada foi para a minha geração o que Arembepe tinha sido para a geração que nos antecedeu. Visitei Canoa Quebrada pela primeira vez em 1982 ou 83, quando não havia estrada, energia elétrica ou pousadas. Todo mundo ia pra lá em busca de uma experiência "alternativa", como se dizia então, ou pelo menos pra comprar um anel ou pingente de casco de tartaruga com o famoso desenho da lua e estrela.

A fama do lugar cresceu e, com ela, o 'progresso', despertando justificadas preocupações. Me lembro que, no velho 'Sistema de Bolsas' da FACE (o PET de hoje em dia), chegamos a sonhar com um projeto de pesquisa para estudar in loco e in tempore opportuno a chegada do capitalismo ao extremo sul do litoral cearense, um pretexto mais que apropriado pra justificar uma boa e longa temporada naquela que era uma aldeia isolada de pescadores. Havia sinais claros e preocupantes de monetização das relações locais de produção (gostaram?), como o crescimento do comércio de latões d'água trazidos no lombo dos jegues para viabilizar o banho diário dos turistas ou os valores cobrados em dinheiro, e não em sorrisos, pelo aluguel de ganchos nas casas dos locais, que nos davam o direito de pendurar nossas redes pra passar a noite.

O fato, infelizmente, é que o nosso projeto de pesquisa não foi em frente. Nem chegou a ser escrito porque, apesar de jovens e animados, nós já sabíamos que nem o CNPq, nem a Capes seriam capazes de perceber o que havia de meritório na nossa proposta, frustrando qualquer expectativa de financiamento, por menor que fosse.

Por isso mesmo, devo admitir minha surpresa quando abri o Valor deste final de semana e me deparei com uma matéria sobre Arembepe que, na verdade, é uma resenha de um livro que está sendo lançado e que conta estórias passadas naquela aldeia nos anos 1970. O livro é escrito por três publicitários e jornalistas e não tem qualquer pretensão acadêmica. Mas a matéria menciona a certa altura um estudante de antropologia da Universidade Columbia, de nome Conrad Kottak que, tendo passado 16 temporadas em Arembepe, escreveu um livro com um título que poderia muito bem ser o do nosso malfadado projeto de pesquisa: Assault on Paradise: the Globalization of a Little Community in Brazil.

Li e reli este parágrafo diversas vezes, sem acreditar no que estava dito. Tive que consultar o Google para aplacar a incredulidade e quase recorri ao ChatGPT pra acabar com qualquer dúvida. O fato é que Conrad Phillip Kottak não apenas existe, como é professor emérito da Universidade de Michigan e fez extensos trabalhos de campo etnográficos no Brasil e em Madagascar (este aí sabe viver). O livro -- adivinhem -- também existe: foi publicado originalmente em 2006 e está na quarta edição (atualizada, é claro), e está anunciado na Amazon por US$26.99 mais despesas de envio (ou por míseros R$775,00 na loja brasileira da mesma Amazon, se for de sua preferência).

Resta o consolo de saber que alguém fez o que sonhamos um dia fazer. E a constatação de que, pelo visto, as agências de fomento americanas eram mais sensíveis a este tipo de investigação do que eu podia imaginar naquele longínquo 1982. Bom pra eles.

(Nas fotos: Canoa Quebrada e Arembepe, em outros tempos).

 


 

 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Some historical anniversaries of authors and works related to economics that we'll celebrate in 2023

I made this short list of historical anniversaries of authors and works related to economics that we'll celebrate in 2023. No purpose intended, just for fun. Of course, it is far from complete. 

Adam Smith (1723-1790)Starting with the most important date: the 300th anniversary of Adam Smith's birth. 

Adam Ferguson (1723-1816)It's also 300 years since Adam Ferguson was born.

The 300 years of the birth of Paul Heinrich Dietrich von Holbach (Baron d'Holbach). 

The 300 years of the birth of Dr. Richard Price. 

 The 300 years of the birth of Pedro Rodríguez de Campomanes. 

The 300th anniversary of the death of Bishop William Fleetwood. 

The 300 years of the second edition of The Fable of the Bees: Or private vices, publick benefits, by Bernard Mandeville. 

The 300th anniversary of the edition of the Dictionnaire universel du commerce, by Jacques Savary de Bruslons. 

The 250 years of the birth of James Mill. 

250 years since the birth of Jean-Charles-Léonard Simonde de Sismondi. 

The 250 years since the edition of Table raisonnée des principes de l'économie politique, by Pierre Samuel DuPont de Nemours. 

David Ricardo (1772-1823)The 200 years of the death of David Ricardo. 

The 200th anniversary of the birth of John Elliot Cairnes. 

The 200 years since the birth of Reverend Thorold Rogers. 

The 200th anniversary of the birth of John Kells Ingram. 

The 200th anniversary of the publication of The Measure of Value, by Thomas R. Malthus. 

The 200th anniversary of the publication of Grundriss der Kameralwissenschaft oder Wirthschaftslehre für encyklopädische Vorlesungen, by Karl Heinrich Rau.

 The 200th anniversary of the publication of Thoughts and Details on the High and Low Prices of the Thirty Years from 1793 to 1822, by Thomas Tooke. 

John Stuart Mill (1806-1873)In the second half of the 19th century, the number of authors and books multiplied. I mention just a few anniversaries that seems to be the most important dates: 

The 150th anniversary of the death of John Stuart Mill. 

The 150 years since the publication of Lombard Street: A description of the money market, by Walter Bagehot. 

The 150 years since the creation of the Verein für Socialpolitik. 

Now, going back to the 17th century, there are other commemorative dates that deserve to be recorded, starting with the 400th anniversary of the birth of William Petty.

The 400th anniversary of the birth of Thomas Papillon and the 400th anniversary of the death of Leonardo Lessius. 

The 400th anniversary of the publication of Edward Misselden's The Circle of Commerce

The 400th anniversary of the publication of The Center of the Circle of Commerce, by Gerard de Malynes.

 And, finally, the 350th anniversary of the publication of De officio hominis et civil juxta legem naturalem, by Samuel Pufendorf.

 

sábado, 31 de dezembro de 2022

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Simon Clarke (1946-2022)

Simon Clarke faleceu na terça-feira (27/12).
 
Pouco conhecido no Brasil, mesmo entre os estudiosos da obra de Marx, foi menos lido ou citado do que devia. 
 
Alguns de seus livros são marcos importantes na literatura sobre as teorias do valor, das crises e do Estado, começando por Marx, marginalism and modern sociology (1982); Keynesianism, monetarism and the crisis of the state (1988); Marx's theory of crisis (1994); e o volume que organizou sobre The state debate (1991).
 
Foi também autor de vários estudos sobre relações de trabalho na Rússia, na China e no Vietnã.
 
Os originais (preprints) destes livros e do seu guia de leitura d'O Capital, bem como de vários artigos, podem ser encontrados na sua velha página pessoal no site na Universidade de Warwick.Também há algo no Libcom

RIP Simon Clarke (1946-2022).
 

sábado, 17 de dezembro de 2022

Um roteiro de livrarias em Belo Horizonte

 

Um comentário do Afonso Borges publicado no twitter e reproduzido na imagem ao lado me fez pensar no trajeto pelas livrarias de Belo Horizonte que eu fazia costumeiramente no final dos anos 1970 e começo dos anos 1980. Vamos ver se ainda me lembro...

Podia começar na Nossa Livraria da Tupis, em frente ao velho cinema, que era a mais próxima do ponto do meu ônibus. 
 
Dali à Vozes, na galeria entre Tupis e Espírito Santo. 
 
Depois na Itatiaia, na rua da Bahia.
 
Subindo a Rua da Bahia até o Maletta, visita obrigatória ao Zé Maria e suas pilhas de livros da Siglo XXI e da FCE. Um tesouro pra quem estudava ciências humanas.
 
Rápida passagem na Eldorado, antes de contornar o quarteirão e ir à Van Damme namorar os importados. Só mesmo pra namorar, porque na época havia o dólar-livro e eles eram caríssimos pro meu bolso de estudante. O poderoso ar-condicionado da loja era um alívio em dias de calor e chuva.
 
Dali, se o tempo permitisse, ainda podia fazer variações. Passar na Imprensa Oficial pra ver o Suplemento Literário, na Científica (na Espírito Santo, entre Augusto de Lima e Goitacazes), no Daniel Vaistman (mais abaixo na Espírito Santo), ou no Amadeu
 
Eu era feliz e sabia.
 
PS. Anos mais tarde, houve a Acaiaca, na São Paulo. Acho que nesta época meu roteiro já havia se mudado pras livrarias da Savassi, mas isso já é assunto pra outra postagem.
 

 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

O saudoso prédio da FACE-UFMG na Rua Curitiba

A imagem abaixo é uma uma perspectiva do belo e saudoso prédio na Rua Curitiba 832, esquina de Rua dos Tamoios, que foi sede da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG entre 1954 e 2007.
 
Agradeço ao Demilson Malta Vigiano por postar o desenho, que faz parte do acervo de plantas arquitetônicas sob a guarda do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte, e à minha amiga, Tereza Bruzzi, que me chamou a atenção para o registro.
 
O projeto deve ser do final dos anos 1940 ou, mais provavelmente, do início da década de 1950, porque a Faculdade instalou-se ali em 1954, quando era diretor o Professor Yvon Leite de Magalhães Pinto. O prédio ainda estava em construção quando a Faculdade se mudou para lá: a fachada principal, na Rua Curitiba, estava concluída, mas a lateral, na Rua dos Tamoios, foi completada nos anos seguintes.
 
Segundo o registro, o autor do projeto foi o arquiteto Virgílio de Castro, que frequentou a primeira turma de estudantes da Escola de Arquitetura da UFMG e, mais tarde, se tornaria professor da mesma Escola.
 
O prédio foi a primeira sede própria da Faculdade de Ciências Econômicas (a FACE) e nele ficamos até o final de 2007, quando foi feita a mudança para o novo prédio do campus Pampulha.
 
 
Perspectiva do prédio que foi sede da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG

 

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Nos 75 anos da revista Kriterion (1947-2022)

 

Num ano de tantas efemérides, é preciso lembrar que também estamos comemorando os 75 anos da revista Kriterion. Criada para ser a revista da Faculdade de Filosofia de Minas Gerais, ela é publicada atualmente sob a responsabilidade do Departamento de Filosofia da UFMG.

No editorial que abre o primeiro volume, o Professor Braz Pellegrino (1896-1969) -- então diretor da Faculdade, médico e professor de língua e literatura italiana, além de pai do escritor e psicanalista Hélio Pellegrino -- afirmava:
 
"Não é possível compreender-se uma Faculdade de Filosofia de cuja trama espiritual esteja ausente esta necessidade de criar, esta curiosidade intelectual que não se farta com o já feito mas procura incessantemente exercitar sua força em novos empreendimentos e novas pesquisas.
 
Desta busca renovada e renovadora se constitui, inclusive, o espírito universitário, infelizmente tão escasso entre nós, viciado que está por uma compreensão burocrática do conhecimento, como se uma universidade fosse apenas uma fábrica de técnicos e especialistas, e não de homens, humanizados pela ciência, pelo pensamento e pela beleza, capazes de desvendar horizontes novos e levar ao acervo cultural dos séculos a sua pequenina contribuição."
 
A revista, informava o editorial, pretendia assumir o papel de "porta-voz da cultura em terras de Minas", propondo-se a tarefa de arregimentar pessoas ligadas por "uma mesma espécie de interesse intelectual" e reunir contribuições nos campos das belas letras, da filosofia e da ciência, "em torno de um núcleo comum de trabalho".
 
O texto completava:
 
"A isto, a esta tarefa arregimentadora, nos propomos, com a melhor das intenções, dispostos a contribuir efetivamente para a marcha da cultura no Estado. Oxalá sejamos compreendidos".
 
É natural que a abrangência e o escopo da publicação tenham mudado ao longo destes três quartos de século. Com o passar do tempo, a publicação redefiniu-se como uma revista de filosofia e conquistou público e autores nacionais e internacionais. Não resta dúvida, porém, de que os objetivos propostos em 1947 foram alcançados. As inquietações e a compreensão do espírito universitário que animaram sua criação continuam atuais. Por esta razão, não é difícil para nós compreender as motivações dos seus iniciadores, convocados que estamos a combater o mesmo vício da "compreensão burocrática do conhecimento", ainda que sob novas formas.
 
Por tudo isso, fica o registro do meu singelo agradecimento a todos -- editores, autores, revisores, secretários e trabalhadores associados à produção gráfica da revista -- que cooperaram para mantê-la viva. Quem já se meteu neste tipo de empreendimento sabe ou pode imaginar toda sorte de dificuldades e obstáculos que tiveram que ser vencidos, e com certeza não foram poucos. 
 
Parabéns, Kriterion!