quarta-feira, 17 de julho de 2019

Andrea Camilleri (1925-2019)


Andrea Camilleri tinha 69 anos quando publicou A Forma da Água, o primeiro livro da série com o Inspetor Montalbano. Demorou cinco anos para que a tradução fosse publicada no Brasil (ela chegou três anos antes da tradução inglesa, o que não deixa de ser um consolo). Depois disso, foi uma espera contínua pelos livros seguintes da série, da qual me tornei um leitor assíduo.

Montalbano nunca me decepcionou. Sempre debochando dos poderosos e expondo sua truculência e sua estupidez. Camilleri, também, jamais me decepcionou. Não se calou diante dos absurdos de Berlusconi e Salvini, e nunca poupou a direita ensandecida de seu país de uma crítica justa e dura.

Livro após livro, Camilleri e Montalbano animaram meus sonhos de morar em Vigatá, frequentar suas trattorias e osterias, conhecer Livia, Fazio, Mimì Augello, o jornalista Nicolò Zito e conversar com Catarè, o impagável Catarella, "pessoalmente em pessoa".

Andrea Camilleri morreu ontem, aos 93 anos. Dizem que deixou com seu editor um volume inédito em que conta a última estória de Montalbano. A ver.

Descansa em paz.
 
 

terça-feira, 2 de julho de 2019

Ortodoxos e heterodoxos em economia

Diz-se que os economistas dividem-se em ortodoxos e heterodoxos. Isso muita gente sabe.

Há quem pense que a divisão é uma criação recente e tipicamente nacional. Enganam-se. É antiga e continua presente em outras partes do mundo.

Este achado do François Alisson (@F_Alisson) é precioso: uma definição proposta em 1863 por P.-O. Protin em seu Les économistes appréciés, ou Nécessité de la protection (Paris: Dentu, 1863).
Diz o seguinte:

"Il y a des économistes qui se sont arrêté à Adam Smith, Ricardo, Malthus , Rossi, J.-B. Say, et qui disent : la science est faite ; nous n'avons plus qu'à en répandre les bien faits, à la vulgariser, en la rectifiant sur quelques points secondaires. Ce sont les fidèles ou orthodoxes.
D'autres, plus hardis ou plus aventureux, ne consentent pas à s'en tenir aux théories des maîtres, parce qu'ils les trouvent insuffisantes, défectueuses même en plus d'un endroit. Ce sont les infidèles ou hétérodoxes. Ce n'est pas arbitrairement que nous établis sons cette distinction dans l'École : ce sont les économistes eux-mêmes qui se sont ainsi dé finis."

Mal e porcamente traduzido (alguém corrija o que couber, por favor):
"Há economistas que pararam em Adam Smith, Ricardo, Malthus, Rossi, J.-B. Say, e que dizem: a ciência está feita; temos apenas que espalhar os benefícios, popularizá-los, corrigindo-os em alguns pontos secundários. Estes são os fiéis ou ortodoxos.
Outros, mais ousados ou mais aventureiros, não consentem em se ater às teorias dos mestres, porque as consideram inadequadas, e até mesmo defeituosas em mais de um aspecto. Eles são os infiéis ou heterodoxos.
Não é arbitrariamente que estabelecemos essa distinção na Escola: são os próprios economistas que se definiram assim."

É ou não é uma beleza? Link pra quem quiser seguir o fio.



sexta-feira, 15 de março de 2019

Neil Armstrong (1930-2012)

Não vi o documentário ainda e, provavelmente, o que vou dizer não vai fazer muito sentido pra maioria dos meus amigos e pra totalidade dos que não acompanharam à época a epopeia da Apolo XI. O que vai dito aqui foi despertado pela leitura deste comentário sobre o filme, publicado há poucos dias.

Eu tinha 7 anos quando pousaram na Lua pela primeira vez e me lembro bem de ficar acordado até meia-noite pra ver aquele pouso histórico. Eu tinha uma espécie de "mapa" do voo, publicado no número especial de uma revista, e que usei muitas vezes para brincar de Apolo XI, simulando cada etapa da viagem: a decolagem, as manobras de acoplamento e desacoplamento, a alunissagem, a reentrada na atmosfera e o resgate no mar.

Neil Armstrong era, dos três tripulantes daquela missão, o que mais me cativava e, certamente, não apenas por ser o seu comandante. Eu achava que havia algo de trágico no papel de Michael Collins, que iria até lá mas não desceria na Lua, e um tanto de arrogante na figura de Buzz Aldrin, com quem nunca consegui simpatizar. Neil Armstrong parecia diferente e, ao ler o comentário sobre o filme, me dei conta do que consistia esta diferença, aquilo que me cativava: o contraponto humano com a dimensão de tudo que cercava aquela missão.

De novo: não sei se isso vai fazer sentido pra mais alguém. De fato, é engraçado como estas coisas podem soar como uma revelação, o esclarecimento súbito de algo que você pressentia desde há muito tempo mas nunca soube explicar direito, de coisas que fizeram parte de uma infância.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Herbert Marcuse (1898-1979)

No ano passado, comemoraram-se os 120 anos do nascimento de Herbert Marcuse. Em 2019, os 40 anos de seu falecimento. Até onde pude acompanhar, pouca coisa foi feita por aqui e mesmo lá fora para celebrar as datas e rememorar a vida e a obra do autor. É claro, pode ser só a minha impressão ou mesmo falta de informação.

De todo modo, o que eu gostaria de registrar aqui é a publicação de dois números da revista "Dissonância: Revista de Teoria Crítica", que eu também não conhecia, números integralmente dedicados à Marcuse. Alvíssaras!

O primeiro número, lançado ainda em 2018, traz nove artigos sobre sua obra, escritos por intérpretes brasileiros e do exterior, além de uma apresentação dos editores dos dois números, John Abromeit e Marcos Nobre.

O segundo, lançado há pouco, publica traduções inéditas de seis artigos de Marcuse, entre os quais um texto publicado postumamente, em 1992, sobre Ecologia e Crítica da Sociedade Moderna, que é a transcrição de uma fala de 1979, ano de sua morte. O número traz ainda duas entrevistas com Marcuse, que incluem uma longa conversa de 1978 com Jürgen Habermas, Heinz Lubasz e Tilman Spengler.

Enfim, tem coisas preciosas pra quem se interessa pela obra do grande filósofo e cientista social alemão, e formam um registro à altura das duas efemérides.A revista tem acesso aberto.

Herbert Marcuse (1898-1979)

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Os melhores romances policiais de 2018


Hoje é o último dia de minhas férias e decidi retomar um hábito que mantive por um bom tempo, mas que, por falta de tempo, ficou suspenso nos últimos dois anos: o de listar aqui alguns dos melhores romances políciais que li no ano que terminou. A lista não tem qualquer pretensão além de fazer um registro pessoal mas, a julgar pela popularidades destas postagens, pode servir para mais alguém como uma espécie de sugestão de leituras.

Ressalvo, de todo modo, que a lista não é de lançamentos, isto é, de livros publicados em 2018, mas dos melhores entre os romances policiais (em sentido amplo) que pude ler no último ano. Sem mais comentários, foram os seguintes:



Polícia, de Jo Nesbo. 
Tradução de Kristin Garrubo.
Editora Record, 2017.

O sol da meia-noite, de Jo Nesbo. 
Tradução de Christian Schwartz e Liliana Negrello.
Editora Record, 2018.

   Com a morte de Stieg Larsson e Henning Mankell, não tenho dúvida alguma de afirmar que Jo Nesbo é o melhor autor vivo de romances policiais nórdicos (o meu estilo preferido). Sua assinatura é praticamente a certeza de um bom livro e estes dois, que li no ano passado, não desapontam.

Polícia
é o penúltimo volume publicado da série com o detetive Harry Hole, um personagem inesquecível, às voltas com seus demônios, e o principal responsável pelo sucesso da série, que já vendeu milhões de exemplares. O volume seguinte, Sede, já foi lançado em português e, em 2019, deve sair Kniv (Faca), que ainda não tem previsão de ser publicado por aqui. 

O sol da meia-noite
, por sua vez, dá continuação a Sangue na neve, e é o segundo volume da série protagonizada por Olav Johansen, um matador de aluguel que tem enorme dificuldade em desempenhar sua profissão. Por conta disso, ele tem que fugir do seu antigo patrão, um traficante de Oslo que pôs sua cabeça a prêmio, indo parar numa remota cidadezinha norueguesa habitada por uma comunidade de seguidores do laestadianismo. É Nesbo em um de seus melhores momentos.



O desaparecido, de Dror Mishani. 
Tradução de Paulo Geiger.
Cia das Letras, 2017.

Dror Mishani é um autor israelense. Estudioso da literatura de romances policiais, é também um escritor de mão cheia. O desaparecido é seu primeiro livro e, até aqui, o único traduzido para o português. Foi escrito enquanto o autor tentava redigir uma tese de doutoramento, o que por si só já é curioso. Posso assegurar que a narrativa e o personagem principal, o detetive Avraham Avraham, são diferentes de tudo que eu já tinha lido. Não por acaso, o livro acabou ganhando o prestigioso Martin Beck Award, conferido pela Svenska Deckarakademin, a Academia Sueca de Autores de Romances Policiais.

Numa palavra? Leiam!






Gênese, de Karin Slaughter. 
Tradução de Gustavo Mesquita.
Editora Record, 2017.

Destroçados, de Karin Slaughter. 
Tradução de Cláudia Costa Guimarães.
Editora Record, 2018.

Karin Slaughter se destaca entre as autoras americanas mais recentes da área. Nestes volumes dois de seus personagens mais famosos se encontram e dividem a mesma estória: Sara Linton, uma médica pediatra e (ex-) legista em tempo-parcial, e Will Trent, agente especial do Georgia Bureau of Investigation (GBI) em Atlanta.

Pra resumir: dois bons suspenses, destes que prendem a atenção, mas não convém esperar muito mais do que isso.








terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Obras Clássicas do Pensamento Económico Português

Boa notícia: os 30 volumes da coleção Obras Clássicas do Pensamento Económico Português, editada por José Luís Cardoso, estão disponíveis agora em meio eletrônico. São vinte títulos lançados nos anos 1990, mas há muito esgotados ou difíceis de encontrar.

Preciosidades pra quem é do ramo.



domingo, 23 de dezembro de 2018

Pipiripau

Ontem foi dia de visita ao Pipiripau, a primeira pros meus filhos.

Raimundo Machado, o criador do presépio, começou a construí-lo quando tinha 12 anos, em 1906. De início era apenas um Menino Jesus numa manjedoura de papelão, forrada de cabelo de milho e musgo. Aos poucos, juntando materiais diversos recolhidos aqui e acolá e devidamente reciclados, construiu as 650 figuras de papel marchê, a maior parte delas animada, reunidas em 45 cenas que retratam a vida de Cristo em um cenário que tem muito de BH e das cidades coloniais mineiras.

A primeira peça com movimento data de 1912, a primeira cena iluminada veio em 1925 e, finalmente, em 1927, o presépio ganhou um motor elétrico. No mesmo ano, Drummond dedicou-lhe um poema. A primeira vez que visitei eu era bem menino e ele ainda ficava na casa de Raimundo, aonde fui com meus pais.

Em 1983, ele foi transferido para o Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG. Entre 2012 e 2017, passou por uma restauração minuciosa e delicada, trabalho executado por uma equipe da Universidade Federal de Minas Gerais com o apoio da Unimed-BH.

Raimundo Machado faleceu há 30 anos, em 27 de agosto de 1988, mas seu presépio está lá e impressiona a meninada que o visita, com seus movimentos, luzes e o som ruidoso do trovão ao final da exibição.

Um viva, então, pra Raimundo Machado!