terça-feira, 19 de julho de 2016

Roman Rosdolsky (1898-1967)

Roman Rosdolsky nasceu há exatos 118 anos, em 19 de julho de 1898. Nasceu em Lvov, que à época era parte do Império Austro-Húngaro e, hoje, uma cidade da Ucrânia. Foi, ao lado de Isaak Rubin, um dos mais importantes intérpretes da obra econômica de Marx.

João Antonio de Paula escreveu um artigo que eu tive o prazer de publicar em Nova Economia e que é a melhor informação biográfica sobre Rosdolsky disponível em português.


Numa memória escrita em 1956 sobre os anos em que foi prisioneiro em Auschwitz, Rosdolsky conta o seguinte diálogo, que é esclarecedor de sua compreensão do socialismo, que continua tão atual:

"Why do I write about this? Why reopen old wounds? Let me just recall one small episode. It was in the camp, on Sunday, after lunch. A group of prisoners were lying on their bunks and talking about the end of the war, which they expected was approaching. A young Pole, Kazik, turned to an older prisoner, whom everyone called “the professor,” and asked him: “Professor, what will happen to Auschwitz after the war?”

“What do you think should happen? answered “the professor.” “We’ll go home.”

“Don’t talk nonsense, professor,” said Kazik. “No one here will get out alive.”

“That’s true,” said the professor. “But, still, the living should not abandon hope [words of the Polish poet Juliusz Stowacki]! And as for Auschwitz itself, the new Poland will build a great museum here and for years delegations from all of Europe will visit it. On every stone, on every path, they’ll lay a wreath: because each inch of this earth is soaked with blood. And later, when the barracks collapse, when the roads are overgrown with grass and when they have forgotten about us, there will be new and even worse wars, and even worse bestialities. Because humanity stands before two possibilities: either it comes up with a better social order or it perishes in barbarism and cannibalism.”

The unfortunate professor was only repeating the words already spoken by the socialist thinker Friedrich Engels 80 years ago. I had heard them several times before the war. But in the bunks of Auschwitz they sounded more real and more correct than ever in the past. And who today, after all the Auschwitz’s, Kolymas, and atom bombs, can doubt the truth of these words?"


Roman e Emily Rosdolsky.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Segesta lança tradução do Tratado da Circulação e do Crédito, de Isaac de Pinto.

Tratado da Circulação e do Crédito, de Isaac de PintoPor alguma razão, o lançamento em 2015 da tradução de Tratado da Circulação e do Crédito, de Isaac de Pinto, passou-me despercebido. O volume é o décimo-terceiro título da coleção Raízes do Pensamento Econômico, publicada por uma pequena editora de Curitiba, a Segesta, que há dezesseis anos vem editando uma seleção preciosa de alguns dos textos mais importantes da história do pensamento econômico.

A coleção já publicou obras de autores conhecidos da maioria dos economistas ou mesmo do público letrado, como Adam Smith, Benjamin Franklin, David Ricardo, Cantillon e Simonde de Sismondi. Publicou também autores sobre os quais poucos leitores fora do círculo dos especialistas ouviram falar, como Geminiano Montanari, Ferdinando Galiani ou Antonio Serra.

Isaac de Pinto integra esse último grupo. Nasceu em Amsterdã, em 1717, numa família de judeus de origem portuguesa, ligados ao comércio e às finanças. Seu pai, David Pinto, foi um dos mais ricos membros da comunidade sefardita de Amsterdã na primeira metade do século XVIII. Isaac seguiu os passos do pai, tornando-se acionista e diretor da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, bem como da Companhia Holandesa das Índias Orientais, e uma das figuras mais importantes da vida política e financeira em Amsterdã. Em 1759, em meio a Guerra dos Sete Anos, levantou um empréstimo de seis milhões e seiscentas mil libras para o governo inglês, valor que montava a quase 1/4 do total da dívida pública daquele país.

Traité de la circulation et du crédit, de Isaac de Pinto
Frontispício da primeira edição (1771)
do Tratado da Circulação e do Crédito.
A partir de então, seus negócios sofreram reveses que levaram a uma mudança de rumos em sua vida: mudou-se para Paris e deu início a composição de um conjunto variado de textos, que incluíram um tratado sobre questões monetárias, cujo manuscrito fez circular entre diferentes leitores, entre os quais, David Hume. Apesar de divergirem acentuadamente a respeito das questões relacionadas ao endividamento público, Hume o encorajou a publicar a obra. A edição original, com o título de Traité de la circulation et du crédit, apareceu em 1771 (e não em 1770, como sugere a tradução brasileira recém lançada). Três anos depois, uma versão em inglês foi publicada com o título de An Essay on Circulation and Credit in Four Parts. Apesar disso, o livro teve escassa circulação e repercussão. 

O Tratado abordava um conjunto variado de temas: a liberdade de comércio, a circulação monetária, o consumo de supérfluos, o sistema tributário e o endividamento público. Ao tratar de cada desses assuntos, Isaac de Pinto não hesitou em confrontar as visões estabelecidas por alguns dos expoentes do Iluminismo, como Voltaire, Mirabeau e Hume. Seus argumentos, apesar de originais, não foram suficientes para estabelecer sua reputação entre os analistas econômicos da época. De todo modo, a leitura do Tratado segue sendo esclarecedora do contexto e dos debates que deram origem à economia política como campo disciplinar. Para quem quiser se aprofundar na compreensão da obra, há um bom comentário escrito por José Luís Cardoso e António de Vasconcelos Nogueira, dois estudiosos portugueses.

Registro aqui meu reconhecimento e gratidão à pequena editora Segesta e ao seu proprietário e editor, Andrea Vicentini, pelo lançamento de mais essa tradução. Ninguém deve se enganar quanto a natureza do trabalho que ele vem desenvolvendo à frente da coleção Raízes do Pensamento Econômico. Andrea e sua Segesta não escolheram publicar traduções de livros antigos, de autores quase obscuros, com a expectativa de obter alguma vantagem pessoal ou lucro. Tanto assim que, além das cópias impressas que vende diretamente por meio de seu site, os volumes lançados pela editora estão igualmente disponíveis em meio eletrônico aos interessados, sem qualquer custo. Trata-se, é claro, de um trabalho movido por generosidade e paixão, que só o tornam ainda mais especial e merecedor de nosso agradecimento e simpatia. Parabéns, Andrea!



Andrea Vicentini, editor da Segesta
(foto publicada no jornal Valor, em 03/09/12).





sábado, 21 de maio de 2016

The History of Economic Thought Website está de volta


Criado por Gonçalo Fonseca em 1998, The History of Economic Thought Website foi das melhores coisas feitas no tempos heróicos da internet, quando a gente se encantava com a simples possibilidade de encontrar versões eletrônicas de textos que sempre víamos citados mas que dificilmente estavam disponíveis nas bibliotecas brasileiras. Depois do pioneiríssimo McMaster Archive for the History of Economic Thought, desenvolvido por Rod Hay, foi o meu site predileto entre os recursos on line para estudar economia.

Os tempos mudaram. Importar livros ficou incrivelmente mais fácil e rápido. Vieram as edições em pdf, os e-books, alguns deles disponíveis a um clique mesmo pra quem não tiver um tostão. E, finalmente, surgiram recentemente as versões on line de manuscritos guardados em arquivos espalhados pelo mundo. Tudo isso tornou possível aquilo que dez ou vinte anos atrás era simplesmente impensável: pesquisar sobre a história do pensamento econômico em qualquer parte do mundo, praticamente sem ter que sair de sua casa ou do escritório.

Apesar dessas mudanças, o site do Gonçalo Fonseca continua uma ferramenta útil e bastante confiável para estudantes que queiram começar a se orientar nesse mundo de autores e livros. Ele é uma espécie de repositório de links para textos de (e sobre os) autores que marcaram a história das ideias econômicas, todos eles disponíveis gratuitamente na internet. Mais que isso, é um esforço de apresentar de modo breve a biografia e as ideias de mais de mil diferentes autores, situando-os no contexto das várias escolas de pensamento e dos temas e controvérsias que marcaram a trajetória da disciplina.

Nostalgia à parte, é uma excelente notícia saber que o website está novamente disponível para consulta. O relançamento tornou-se possível por meio de um apoio dado pelo Institute for New Economic Thinking (INET). O conteúdo do site ainda está sendo atualizado, mas ninguém que seja minimamente interessado em economia vai se arrepender se gastar um pouco de seu tempo passeando pelas suas milhares de páginas. Divirtam-se!


domingo, 14 de fevereiro de 2016

Os melhores romances policiais de 2015

O ano passado não me deixou muito tempo para leituras. Ainda assim, consegui acompanhar alguns lançamentos e descobrir autores já publicados no Brasil que eu desconhecia. Para manter a tradição e compartilhar as boas experiências com que se interessar, aqui vai a minha lista dos melhores romances policiais que li em 2015.

São esses:

A entrega, Denis Lehane
A entrega, de Dennis Lehane.
Tradução de Luciano Vieira Machado.
Cia das Letras, 2015.

O rabo da serpente, de Leonardo PaduraO rabo da serpente, de Leonardo Padura.
Tradução de Diogo de Hollanda.
Benvirá, 2015.


O homem que virou fumaça, de Maj Sjöwall e Per Wahlöö.
Tradução de Maurette Brandt.
Record, 2015.







Sangue na neve, de Jo Nesbo.
Tradução de Gustavo Mesquita.
Record, 2015.









A rede, de Hakan Nesser.
Tradução de Patrícia Broers-Lehmann.
Objetiva, 2005.







Hereges, de Leonardo Padura.
Tradução de Bernardo Pericás Neto, Ari Roitman e Paulina Wacht.
Boitempo, 2015.








As listas de anos anteriores podem ser vistas aqui.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Rosa Luxemburgo e o capital financeiro

O vídeo abaixo reproduz uma conferência de Jan Toporowski, professor da SOAS, University of London. Ela foi uma homenagem a Tadeusz Kowalik, falecido em julho de 2012, e foi proferida em um workshop organizado pela Fundação Rosa Luxemburg em novembro do mesmo ano.

Em sua apresentação, Toporowski discute a abordagem de Rosa Luxemburgo sobre o capital financeiro, apontando sua originalidade em relação a outras abordagens marxistas do mesmo tema, como a de Rudolf Hilferding. Além disso, Toporowski contrasta a visão da mesma autora com a abordagem de Hyman Minsky e sua hipótese da fragilidade financeira.

O argumento básico da apresentação pode ser encontrado em um artigo publicado em uma coletânea organizada por Riccardo Bellofiore:
Toporowski, J., Rosa Luxemburg and finance. In: R. Bellofiore (ed.), Rosa Luxemburg and the Critique of Political Economy. London: Routledge, 2009.


domingo, 22 de novembro de 2015

Sobre a edição crítica das obras de Marx e Engels (2)

O artigo sobre as duas tentativas de editar a Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA), que apresentei em um comentário anterior quando de sua divulgação preliminar como "texto para discussão", acaba de ser publicado na Revista de Economia Política:

CERQUEIRA, H. (2015). Breve história da edição crítica das obras de Karl Marx. Revista de Economia Política, 35(4), 825-844.
https://dx.doi.org/10.1590/0101-31572015v35n04a08

O acesso a essa versão é aberto, e pode ser feito através da base SciELO. O artigo está disponível nos formatos HTML, PDF e EPDF.



quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Assegurada a continuidade do projeto editorial da MEGA2

A boa notícia do dia é que, graças ao apoio financeiro da Deutsche Akademie der Wissenschaften, o desenvolvimento do projeto de edição das obras completas de Marx e Engels, a Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA), está assegurado pelos próximos 16 anos! 

O anúncio foi feito pela Berlin-Brandenburgische Akademie der Wissenschaften (BBAW) e pode ser conferido aqui.

A edição da MEGA é feita em cooperação internacional por um conjunto de instituições que, além da BBAW, incluem o  Instituto Internacional de História Social Amsterdam (IISH), o Arquivo Russo de História Social e Política (RGASPI) e equipes de especialistas em diferentes países. A natureza e os inúmeros percalços do projeto editorial da MEGA podem ser conhecidos lendo-se esse texto sobre a história da edição crítica das obras de Karl Marx.

A continuidade do projeto editorial prevê uma mudança no formato dos novos volumes. Alguns manuscritos e cadernos de excertos ainda inéditos, como aqueles relacionados ao tema das crises econômicas e os famosos cadernos de Londres, serão publicados em formato de livro impresso. Os trabalhos jornalísticos e outros manuscritos, bem como a correspondência de Marx e Engels serão, daqui por diante, publicados exclusivamente em formato digital. 


Volumes da segunda seção da MEGA 2 (foto do blog de Roland Boer).